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November 26, 2010 / vilanoticia

Passeio Socrático – Frei Betto

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos dependurados em telefones celulares; mostravam-se preocupados, ansiosos e, na lanchonete, comiam mais do que deviam.

Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia outro café, muitos demonstravam um apetite voraz. Aquilo me fez refletir: Qual dos dois modelos produz felicidade? O dos monges ou o dos executivos?

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: “Não foi à aula?” Ela respondeu: “Não; minha aula é à tarde”. Comemorei: “Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir um pouco mais”. “Não”, ela retrucou, “tenho tanta coisa de manhã…” “Que tanta coisa?”, indaguei. “Aulas de inglês, balé, pintura, piscina”, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: Que pena, a Daniela não disse: “Tenho aula de meditação!””

A sociedade na qual vivemos constrói super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas muitos são emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram que, agora, mais importante que o QI (Quociente Intelectual), é a IE (Inteligência Emocional). Não adianta ser um super-executivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma próspera cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: “Como estava o defunto?”. “Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!” Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega AIDs, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi nho de prédio ou de quadra!

Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito.

Televisão, no Brasil – com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é “entretenimento”; domingo, então, é o dia nacional da imbecilidade coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: “Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!” O problema é que, em geral, não se chega!

Quem cede, desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose. Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma su gestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globo-colonizador, neoliberal, consumista.

Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima e ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade – a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se shopping centers. É curioso: a maioria dos shoppings tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno…

Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer de uma cadeia transnacional de sanduíches saturados de gordura…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: “Estou apenas fazendo um passeio socrático.” Diante de seus olhares espantados, explico: Sócrates, filósofo grego, que morreu no ano 399 antes de Cristo, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas.

Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe, de que não preciso, para ser feliz.”

FREI BETTO – Carlos Alberto Libânio Christo, escritor e assessor de movimentos sociais.

6 Comments

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  1. Régis / Nov 26 2010 11:34 pm

    Enquanto alguns ainda acreditam que a melhor opção é o êxodo rural, ou seja, saída do campo pra cidade, eu, particularmente prefiro a vida interiorana, pois nela encontrei uma vida de qualidade, onde eu posso sentar na calçada de casa e conversar com os meus vizinhos, meus verdadeiros amigos, mesmo que eles estejam caminhando pelo calçamento, ou pedalando suas bicicletas. Bem diferente do que vivo atualmente, trancado num apartamento onde as pessoas esquecem de dar bom dia uns aos outros, ou por falta de educação mesmo, e só se importam com o que encontram das suas portas para dentro. Já pude constatar que, com muito menos atualmente pra viver aqui na cidade grande, posso viver numa cidade do interior, sem todos os grandes luxos, apenas com o básico necessário. Não se trata de voltar a viver como os homens primitivos(das cavernas) diante da globalização que nos sufoca, mas sim, dizer um basta a essa enxurrada tecnológica e consumista que nos força a uma escravidão branca. Para mim esses dias estão contados, estou prestes a me presentear com a própria carta de alforria e aí quem sabe um dia desses eu envio um fax contando as minhas aventuras em liberdade de uma sociedade fria e desumanizada(se ainda existir fax daqui pra lá).
    Abraços
    Régis Rios

  2. revista MundoMulher / Nov 26 2010 11:41 pm

    Maravilhosamente simples e exato seu comentário, Régis Rios. Muito bom mesmo! Ficamos felizes por saber que conseguimos aflorar, ou pelo menos agitar, um pouco mais de sua liberdade para um futuro próximo! Continue nos contemplando com seus comentários, ainda que por fax. =D

  3. Anonymous / Nov 27 2010 12:07 am

    legal este site, tem muita coisas interessantes, principalmente tendências da moda,dicas entre outros!!! rsrsrs parabéénss a ciadora e sua equipe!

  4. revista MundoMulher / Nov 27 2010 12:15 am

    Muito obrigado por sua visita. Esperamos poder sempre atender ao que procura.

  5. Anonymous / Nov 27 2010 2:56 am

    É somos cercados pelo consumo, pelo ter e não nos deparamos que na grande realidade precisamos ser para adquirirmos felicidade, e isso não se compra na esquina, não nos é oferecido pela tv, ou pela net. Na construção dessa felicidade precisamos nos relacionar de alguma forma, precisamos do contato, da natureza, do outro e nada disso é comprado, mas sim vivenciado. Como confiarmos no outro real? Talvez toda essa tecnologia que nos envolve é de fato um escudo para nos protegermos de nós mesmos. Percebem que quanto mais enfeitado é a pessoa, seja por titulação, adereços, matéria, status, coisas e coisas…mas difícil se torna o contato, mas blindada ela se torna??? Vamos nos protegendo com o consumo e empobrecendo em nossa essência.
    Liliane Torres

  6. Anonymous / Nov 27 2010 3:54 pm

    A vida está garregada de desafios e hoje o Ser Humano quer tornar mais facil este dasafios, por isso vai tornando mais “pratica” as coisas da vida. mas me pergunto sempre, onde vamos chegar com tantas mediocridade? onde o Homem brinca de ser Deus? e vai destruindo valores essencias para uma vida humanitaria.
    hoje vale mais quem TEM e não pelo que É.
    onde esse povo criador de tantas coisas querem chegar?
    é hora de dar BASTA a tantas violencias causadas por a vantade do TER. TER o melhor carro, a roupa mais cara, o sapato da moda, e tantaos outras coisas que vai masageando o ego das pessoas. mais isso é passagero por que logo aparece uma novidade e assim vai se tornado um ciclo visioso.
    Jordeane

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